O FIM DE UM MUNDO E AS SUAS PEDAGOGIAS, de Patricia Reed

Originalmente publicado em Making & Breaking, Nº 2, 2021

Tradução de Filipe Felizardo (aguarda revisão) como nº1 dos panfletos HUBRIS, na minha editora Antumbra Publishing House). Agradeço profundamente à autora pela sua autorização para tradução e publicação. As fotografias escolhidas para ilustração foram uma escolha minha. Os diagramas são da autoria de Patricia Reed.

Fumi Ishino – Untitled, 2014

O FIM DE UM MUNDO E AS SUAS PEDAGOGIAS

‘Por vezes é a verdade do possível, em oposição à do actual, que necessita ser veiculada.’1

Lisa Stevenson

FRICÇÕES INSUPRESSÍVEIS

Todo e qualquer humano vive num mundo. Mundos são compostos por conteúdos, a identificação desses conteúdos, e pela configuração das relações-de-conteúdos neles – semanticamente, operacionalmente, e axiologicamente. Como espaços de habitação, mundos são tornados concretos através de modos de fazer e dizer que afirmam a coerência entre os seus conteúdos e as identidades dos seus conteúdos, bem como as relações-de-conteúdos neles. A identificação dos conteúdos de um mundo e a sua configuração relacional são o que estabelece enquadramentos de referência para orientação prática. Recíprocamente, a orientação delineia um espaço de permissibilidade para navegação praticável. Todos os mundos são modelos1, mas nem todos os modelos-mundo se tornam ‘mundos’, na medida em que mundos e mundificação, no sentido aqui evocado, estão constrangidos pelos critérios de habitabilidade2, querendo dizer que mundos são constituídos através de processos de localização. Servindo como sítios para actividades de vida, a condição de habitabilidade de mundos não significa que mundos sejam hospitaleiros, nem que ‘afirmar’ um mundo requer, ou necessariamente leva a concordância moral com a sua configuração específica. Pelo contrário. A resistência de um mundo está correlacionada com o grau ao qual as suas condições de necessidade (materiais e/ou imaginárias) compelem, ou mais violentamente, forçam membros a afirmar a sua configuração na prática, apesar de quaisquer atitudes dissidentes que se sustenham, de modo que mundos capazes de aguentar e absorver tais fricções são os mais duradouros. É possível ser fervorosamente contra a premissa de avaliar e organizar a socialidade humana baseada na capacidade individual para produzir mais-valia (crescentemente arbitrária), apesar de que uma maioria avassaladora ainda tem contas para pagar. As condições de necessidade inerentes a um mundo são as condições que estabelecem uma percepção social da inalterabilidade desse mundo, apesar da dita ‘necessidade’ ser relativa a uma configuração de mundo particular, e não absoluta.3 É assim que mundos perpetuam auto-referencialmente uma estrutura quase-legal de serem completos, totais, ou assim, ‘naturalmente’. Apesar de tudo, todos os mundos eventualmente chegam a um fim, e este fim pode ser indexado à inabilidade (ou inadequação) de uma configuração de mundo existente para absorver fricções dentro de si4 – sejam essas fricções onto-epistémicas (isto é, a descoberta ou invenção de novos conteúdos do cosmos); normativas ou axiológicas (isto é, a re-inscrição semântica dos conteúdos, ou as identidades dos conteúdos de um mundo); ou socio-materiais (isto é, as alegações feitas em nome da habitação inospitaleira).

Patricia Reed – 2020

Reconhecer o limite de fricções insupressíveis que germinam a partir de um mundo existente iguala tornar inteligível a incompletude desse mundo. Correspondentemente, reconhecer a incompletude de um mundo é re-conhecer o seu fim. Isto porque todo e qualquer mundo aparentemente ‘completo’ é subscrito por uma configuração particular de futuridade que legisla um grau de dinamismo contínuo contido nesses parâmetros futurais. A resistência de um mundo não significa que as condições de habitação contidas em si são inteiramente estáticas ao longo do tempo – dizer que se vive hoje exactamente como se viveu há vinte anos seria impreciso. Contudo, a preservação de um mundo é mantida pela confirmação de conceitos e ideais narrativos de futuridade que garantem a sua continuidade genérica através de mudanças particulares. Enquanto essas estruturas futurais subjacentes estiverem confirmadas, mesmo nas actividades ditas ‘inventivas’ ou ‘disruptivas’, a existência de uma futuridade própria a esse mundo será conservada, e o grau de transformação nele pode ser registado como uma ‘novidade provável’, ou aquilo a que Anna Longo chama ‘desterritorialização relativa’.5 Reconhecer a incompletude de um mundo é compreender que o género da futuridade que lhe é própria (que limita gradações de dinamismo) não é mais relevante, sustentável, ‘natural’, nem desejável. A futuridade própria a esse mundo chegou efectivamente a um fim, impondo um ponto terminal na possível continuidade desse mundo. Se todo e qualquer mundo é subscrito por narrações axiomáticas de si mesmo, como Federico Campagna sugere6, o fim de um mundo é a descoberta de um limite induzido por fricções insupressíveis, onde nem mais um capítulo dentro dessa história mundo-axiomática pode, ou deve, ser escrito. Coincidentemente, o fim de um mundo é também marcado pela irrelevância das suas condições relativas de necessidade, que concretizam práticas de vida/vivência particulares e a codificação de relações que lhe são endémicas.

Patricia Reed – 2020

MONO-DIMENSIONALIDADE DE PEQUENO-MUNDO

A turbulência de orientação que chega com o fim de um mundo (onde axiomas dados não mais providenciam certeza referencial) pode ser expressa como uma re-cognição da fissura entre formas de conhecimento teóricas e práticas. Correspondentemente, a inteligibilidade do fim de um mundo é constituída pela capacidade de transportar o testemunho da geografia desta fissura. Correntemente, esta fissura é constituída pela fricção entre práticas (modos de habitação concreta) Euromodernistas7, globalizantes, e o planetário (como um modelo teórico, explanatório). Nós podemos ter conhecimento do planetário, na medida em que pode ser nomeado, mas as ramificações práticas, sociais, do seu puro nomear têm ainda que ser coordenadas ou localizadas. Por outras palavras, o planetário tem ainda que ser mundificado. A discrepância entre modos de habitação globalizados e a condição planetária (teórica) pode ser sucintamente capturada na distinção seguinte: a diferença entre a feitura de um mundo comum vs. a feitura de mundos em comum. Onde as operações de globalização têm sido expansivas, as condições nas quais estas se desarrolaram são guiadas por tendências mono-dimensionais: uma única métrica para a medida do valor, um modelo temporal de melhoramento futural para ganhar admissão na ‘história mundial’, a proliferação de monoculturas agrícolas, o humano constrangido por um rascunho comportamental ‘mono-humanista’8,uma única ‘geografia da razão’9 privilegiada, e por aí adiante. A feitura de um mundo comum é coincidente com a ‘tendência entrópica dirigida à eliminação do diverso’10, ponto no qual o género da ‘expansividade’, que é constitutivo deste mundo comum, pode ser entendido operacionalmente como o movimento sistemático do fazer-pequeno. Enquanto talvez contra-intuitivo, o fazer-pequeno de um mundo não é uma referência à escala bruta de actividades de vida constitutivas de um mundo global, mas antes ao espaço estreito, monótono, de acesso a actividade dentro dele. O fazer-pequeno deste mundo é predicado sobre a construção de um espaço-de-jogo uniforme, semelhante ao que Anna Longo tem descrito nas suas considerações sobre o ‘Jogo Global’11. Como um derivado económico de considerações sobre progresso histórico do foro da teoria dos jogos evolucionista, a volatilidade do mercado é justificada como o espaço necessário, ‘natural’, para a creatividade e inovação, exigindo que jogadores na rede se adaptem continuamente a nova informação (novidade), que, por sua vez, produz estratégias de jogabilidade ajustadas para maximizar o seu valor de utilidade, medido pelo peso ‘nodal’ dentro da rede (isto é, acumulação de riqueza, tendendo para monopólio). O preço de admissão para agentes neste jogo é a aceitação de ‘dinâmicas longe do equilíbrio’, significando uma aceitação de riscos crescentes (uma forma ameaçadora de entropia) como condição de necessidade para entrada num mundo global12. Dentro de tal espaço-de-jogo de pequeno-mundo, a diversidade é reduzida a mera sombra de si mesma – adjudicada pelos modos de inclusão em tal mundo: a entrada é possível apenas na condição de submissão aos seus códigos governantes estruturalmente invariantes, ainda que parcialmente dinâmicos. A eliminação de diversidade (entendida além do binário inclusivo/exclusivo que subscreve a lógica do jogo global) também participa na desvalorização da fricção como um meio possibilitador da produção de ‘vistas de fora’. 13 Tais ‘vistas de fora’, descritas por Sylvia Wynter, não são vistas de nenhures, mas antes uma perspectiva comparativa que gera fricção ao lidar com uma dupla posição ao fazer afirmações que são irredutíveis a configurações concretizadas no presente14: a da condição da implicação estrutural, e a da dissociação desestruturante. A subvalorização da fricção impede a possibilidade de testemunhar a incompletude de um mundo – um sintoma disto pode ser visto amiúde no relato indiferenciado da submissão da totalidade da actividade humana corrente a lógicas capitalistas.

HABITANDO A ESPESSURA PLANETÁRIA

Planetaridade15 pode ser entendida como (ainda não concretizada) feitura de mundos habitáveis em comum, tal como estes emergem de, e negoceiam artefactos residuais de histórias pluri-materiais laminadas. As pistas para a sua divergência habitável de um mundo global podem ser localizadas na arqueologia residual da sua estrutura formal. Isto é, o planetário é a consequência de uma multiplicação exponencial de relações entre diversas entidades, temporalidades, químicas, e materiais. Tal estrutura produz um diagrama espacial multi-dimensional que é diminuído por modos de fazer socio-economico-técnicos, guiados por um ethos de fazer-pequeno. A expansividade deste mundo-global, como se vem a revelar, é bastante plana e mono-dimensional. Em contraste, a habitação planetária deve prioritizar ‘espessura’ estrutural, afastando-se de uma ênfase nos ‘sítios’ de relação inerente às condições formais, n-dimensionais da sua própria composição. Dentro de tal enquadramento referencial, relacionalmente balanceado, o espaço de problemas desvia-se de questões sobre onde estão as coisas (como entidades auto-contidas), para como as coisas ‘se sustêm’ juntas, de onde podemos extrapolar as consequências de várias predisposições políticas pertencentes a um mundo-global.16 Primeiro, um desmantelamento da governamentalidade liberal que situa liberdades à unidade granular do humano individual: desviando o local de ênfase de um paradigma de existência (uma entidade) para co-existência (a relação, e não só a sua facticidade, mas as suas qualidades). Enquanto que o uso incrementado de termos como ’emaranhamento’ e ‘interdependência’17 iluminam uma ênfase no local das relações, é crucial pensar nas condições e no condicionamento da sua existência – uma distinção qualitativa que está muitas vezes ausente em convenções representacionais dos diagramas tipo-rede que se propõem a mapear estes emaranhamentos. Segundo, um desvio na ênfase para longe da influente designação de Carl Schmitt do ‘político’ como aquilo que assenta na determinação binária de da distinção amizade/inimizade, e em direcção ao balancear de relações, doravante desviando a ênfase em direcção à construção de ‘nós’ plurais18 – por outras palavras, solidariedades. Usando emprestada a premissa de Denise Ferreira da Silva, diferenças são inseparáveis: existem e não podem ser aplanadas por um imposição de pequeno-mundo, mas, crucialmente, coexistem numa configuração planetária n-dimensional, o que significa que se sustêm juntas através de uma relação qualitativa.19 Pensado diagramaticamente, este desvio em ênfase desde o nódulo (entidade individual) para o limite (uma relação) não trata de romantizar interconectividade n-dimensional como se a sua pura facticidade estrutural fosse automaticamente dar em relações harmoniosas, justas, ou desejáveis. Pelo contrário, ao colocar ênfase na potência qualitativa das relações, torna-se possível um melhor tratamento de assimetrias socio-economicas, nomeadamente, o condicionamento de relações friccionais.

Patricia Reed – 2020

PEDAGOGIAS DE OUTRO-MUNDIFICAÇÃO

Quando considerando mundos e outro-mundificação, a questão das pedagogias planetárias torna-se inextricável das pedagogias no fim de um mundo. Este é um problema mais substancial que simplesmente actualizar ou repopular práticas epistemológicas de mundo-existente com novos termos, métodos, e pesquisa. Instituições de aprendizagem pertencem a mundos: estão infusas por processos de conhecimento cuja própria inteligibilidade dentro de um mundo trabalha para suster a completude auto-referencial desse mundo. Postulado simplesmente: instituições de aprendizagem incentivam géneros de conhecimento que são relevantes para as operações do seu mundo como (se) um sistema ‘total’. Mais ainda, considerando que a crescente submissão das instituições contemporâneas ao entrincheiramento do ‘jogo global’, a sua função primária é a de adaptar aprendizes ao dito mundo (discursiva, economica, e habilitacionalmente). ‘Aprendizes’ é aqui usado num sentido lato, em deferência à afirmação de Lewis Gordon de que a única diferença entre estudantes e professores é meramente a do estatuto de ‘estudante avançado’ de um professor.20 No fim de um mundo, contudo, quando a coesão axiomática vai decaindo, a questão da pedagogia envolve dois factores críticos. Como é que aprendemos inadaptação a uma dada configuração de mundo (o labor negativo de fazer inteligível a irrelevância dos enquadramentos de referência estruturantes)? Como é que começamos a pensar enquadramentos referenciais para um outro-mundo inconcretizado (um labor afirmativo, para o qual modos de conhecimento indutivos são inadequados porque não há memórias disponíveis de um mundo que ainda está por ser habitado)? Existe um limiar delicado neste passo afirmativo que deve ser enfatizado: o desafio é o de atracar ao desconhecido sem ceder à tentação de o forçar irracionalmente em paradigmas de conhecimento familiares como um movimento de falsa feitura-de-certeza; ou então a de mistificar absolutamente o desconhecido (uma lógica igualmente falsa que afirma que por nada poder ser inteiramente conhecido, não lhe há grau de acesso algum). Este limiar delicado pode ser descrito como uma fricção inter-mundo constitutiva entre o provável e o possível, nomeadamente: o local de meta-relações entre um mundo actualizado e um outro-mundo não-actualizado. É no fim deste mundo que comprometimentos práticos e conceptuais para com tais sítios meta-relacionais exigem ramificação experimental, rigorosa, mas lúdica. Tais actividades não precisam de ser sem alegria, mas não estão isentas de risco. Contudo, tal como a lógica de pequeno-mundo do jogo global tem atingido um ápice ao produzir incessantemente vulnerabilidades que são marcadas como ‘risco necessário’, a questão do comprometimento consecutivo com este mundo tornou-se crescentemente palpável como uma ameaça, revelando uma necessidade de des-identificação com este mundo que só pode ser afirmativamente realizada por arriscar colectivamente os comprometimentos para com mundos possíveis.21

Patricia Reed é uma artista, escritora e designer baseada em Berlin.

Filipe Felizardo é artista, escritor, e estudante de Filosofia baseado em Lisboa e Porto.

Filipe Felizardo – Untitled, 2018

1Este axioma em particular é devido a Anil Bawa-Cavia num ensaio em colaboração com a autora “Site as Procedure as Interaction”, in Construction Site for Possible Worlds, eds.: R. Mackay and A. Beech, (Falmouth: Urbanomic, 2020) 82-99

2N.T.: A autora usa inhabitability ou inhabitable para designar ‘habitabilidade’ e ‘habitável’, mesmo dispondo de habitability e habitable – na consideração do tradutor, o uso do prefixo in- intende ênfase na vivência do predicado para além da mera caracterização. É digno de nota, tendo em conta que esta significação é intradutível para português sem se tornar no seu preciso oposto.

3Conrad Hamilton, “The Discrete Ideology of Thomas Piketty: Successes and Failures of ‘Capital and Ideology’”, em Merion West (2 July, 2020) Ver: https://merionwest. com/2020/07/02/the-successes-and-failuresof-thomas-pikettys-capital-and-ideology/

4Anna Lowenhaupt Tsing introduziu o conceito de ‘fricção’ para descrever a co.produção de culturas através de interacções através da diferença em instâncias de ‘encontro de mundos’. Ver: Friction: An Ethnography of Global Connection, (Princeton: Princeton University Press, 2005).

5Anna Longo, “Escaping the Network”, em Open Philosophy, no. 3, 2020, 175-186.

6Federico Campagna, “Old Worlds and New Beginnings”, palestra Digital Earth em Art Jameel, Dubai, UAE. (7 November, 2019) Ver: https://www.youtube.com/ watch?v=oIT-Ut_o5ug&t=383s&ab_channel=ArtJameel. É também digno de nota que de uma posição teórica diferente, outrxs pensadores, tal como Denise Ferreira da Silva, atingiram também uma tese de ‘fim deste mundo’. Ver: Denise Ferreira da Silva, “An End to This World”, (entrevistada por Susanne Leeb e Kerstin Stakemeier), em Texte zur Kunst (2019) Ver: https://www.textezurkunst.de/articles/ interview-ferreira-da-silva/

7Lewis R. Gordon define ‘Euromodernidade’ do seguinte modo: ‘Por “Euromodernidade,” eu não significo “povo Europeu.” O termo significa simplesmente a constelação de convicções, argumentos, políticas, e uma visão do mundo promotoras da ideia de que o único modo legítimo de pertencer ao presente e consequentemente ao futuro é o de ser o tornar-se Europeu.’ Ver: Lewis R. Gordon, “Black Aesthetics, Black Value”, em Public Culture (30:1, 2018) 19-34.

8Katherine McKittrick, “Unparalleled Catastrophe for our Species”, (entrevista com Sylvia Wynter) em Sylvia Wynter: Being Human as Praxis, ed. K. McKittrick, (Durham: Duke University Press, 2015) 10.

9Lewis R. Gordon, “Shifting the Geography of Reason”, (entrevista com Madina Tlostanova), em New Frame (2019) See: https://www.newframe.com/ shifting-geography-reason/

10Bernard Stiegler, “Noodiversity, Technodiversity: Elements of a New Economic Foundation Based on a New Foundation for Theoretical Computer Science”, em Angelaki (25: 4 2020) 67-80.

11Anna Longo, “Escaping the Network”.

12Ibid.

13Sylvia Wynter, “A Ceremony Must Be Found: After Humanism”, em boundary 2, 12 (Spring-Autumn 1984) 19–70.

14James Trafford, “Reason and Power: Difference, Structural Implication, and Political Transformation”, em Contemporary Political Theory, (18 2 June 2019) 227–247.

15Gayatri Spivak introduziu o termo ‘planetaridade’ em 1997, para defender formas de vida distintas daquelas da globalização. Dado que ela usa o termo de modo a descrever um espaço para vivência (não um modelo abstraco, como o “globo”), ‘planetaridade’ pode ser entendida como a tradução habitável do pensamento planetário.Ver: Gayatri Spivak, “Imperative to Re-imagine the Planet”, em An Aesthetic Education in the Era of Globalization, (Cambridge: Harvard University Press, 2013) 335-350.

16Wilfrid Sellars, “Philosophy and the Scientific Image of Man” em Science, Perception and Reality (Ridgeview Publishing Company, 1991), 1–41. (Ensaio original 1960).

17N.T.: Entanglement e interdependence, no original. O referente pode encontrar-se no uso coloquial português dentro do campo lexical de termos como intersubjectividade, à luz da concepção de tramas relacionais como, por exemplo, descritas por Donna Haraway em ‘Staying with the Trouble’ – sendo que o foco no local por parte desta última é precisamente o que a autora do presente ensaio aponta como insuficiente.

18N.T: No original, ‘we’s‘, uma pluralização da segunda pessoa do plural. Poderia encontrar-se uma afinidade poética no desafio à correcção gramatical que se constitui em afirmar a dupla pluralidade de ‘A gente somos (…)’ em vez de concordar com ‘A gente é (…)’, que devolve o sujeito colectivo a uma ambiguidade verbal que o desapossessa e comprime numa generalização individualizante, individualização essa podendo ser interpretada como vinda de uma locução emitida por uma terceira entidade que se digna a decidir caracterizar ‘a gente’ sem com ela constituir relação.

19Denise Ferreira da Silva, “On Difference Without Separability,” em Live Uncertainty: Catalogue for the 32nd Sao Paolo Biennale, (2016) 57-65.

20Lewis R. Gordon “Fanon, the Teacher”, (palestra) Frantz Fanon: A Colloquium, Tricontinental: Institute for Social Research (5 March, 2020) Johannesburg, SA.

21Reza Negarestani, Intelligence and Spirit (Falmouth: Urbanomic 2018), 488.